17-19/11/2017 - 21h30/17h | Espectáculo "O Rei ...

17-19/11/2017 - 21h30/17h | Espectáculo "O Rei Imaginário"

 

Cartaz_Rei_Imaginario_Ferin_FINAL

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É estranho o que se passa na alma em certos momentos. Estranho e horrível. Uma coisa imunda começa a falar, a pregar, a obrigar-nos a fazer aquilo a que não nos supúnhamos destinados… Julgar? Mas julgar o quê…? O homem que tu és? Ou o homem que está por trás de ti? Julgar-te! Julgar uma alma! Uma alma…!

(O Rei Imaginário, 1923)

Texto escrito por Raul Brandão (1867-1930), O Rei Imaginário foi publicado em 1923 pela Renascença Portuguesa juntamente com as peças O Gebo e a Sombra e O Doido e a Morte. Autor finissecular, a obra literária de Brandão está carregada de um sentimento decadentista-simbolista expressivo, em particular no desencanto com a realidade, pela rotina dos dias. O estado de inquietação reflectido pela sua escrita revela a desconfiança e a descrença no pensamento positivista na transição para o século XX; para muitos, onde se incluiu Brandão, urgia a criação de uma nova ordem moderna.

As personagens deste autor e as respectivas máscaras podem ser consideradas enquanto produto expressivo desse desconforto de fim de século: o tempo em que a notícia da morte de Deus (F. Nietzsche) conduziu a um desamparo moral e existencial na sociedade ocidental. É nesse sentido que Brandão afirma que “a nossa época é horrível porque já não cremos e não cremos ainda. O passado desapareceu, do futuro nem alicerces existem” (Memórias, 1919).

O solilóquio psicótico d’O Rei Imaginário revela-se enquanto exercício dramático deste sentimento trágico da vida transversal em toda a obra brandoniana. Teles, magistrado que se vê confinado às paredes de um calabouço, lança palavras que ecoam em clausura, vãs: nascido de uma família ilustre, caiu depois em desgraça. Partindo desta premissa, a personagem estabelece um discurso múltiplo e fragmentário, desconexo; Teles enfrenta assim a solidão correndo atrás do sonho, uma evasão criada pela ilusão – enfim, um mecanismo anestesiante que permite expelir a dor da existência. 

No ano em que se celebram 150 anos sobre o nascimento de Raul Brandão, oiçamos o eco de Teles, esse rei absoluto, sob as belas arcadas da Livraria Ferin.